Para seguir a linha do título sobre o tema “Médicos Escritores: uma tradição longa e de qualidade”, desenvolvo minha participação, dando um caráter cronológico àquilo que me foi possível observar, apenas como leitor. Ressalto que a inclusão dos nomes foi feita, primeiro, pela lembrança dos livros que li, depois, pelas obras publicadas por médicos escritores que, de alguma maneira, deixaram registrados seus nomes pela qualidade de suas obras ou que tiveram e ou têm demonstrado continuidade na produção. Devo ressaltar, também, que dada a exigüidade do tempo e a presença de outros colegas na mesa mais qualificados, não abordarei os médicos que se dedicaram exclusivamente à poesia. Cabe salientar, de outra parte, que, pelo fato de ter sido publicada uma extensa obra sobre médicos gaúchos escritores já falecidos, no volume 7 da série Médicos (PR)ESCREVEM, em 2001, sob a coordenação dos escritores médicos Blau Souza, Fernando Neubarth, Franklin Cunha, José Eduardo Degrazia, tentarei dar um enfoque um pouco diferente. A escolha dessa linha de trabalho deve-se, também, ao fato de que, ao ser convidado, voltaram em minha memória duas perguntas que, quando me são formuladas, tenho dificuldade de respondê-las. Aproveitei, então, a oportunidade para me debruçar um pouco mais sobre as questões.
Sobre as duas perguntas, explico melhor. Cada vez que um de nós lança um livro, lá vem a o entrevistador: “Mas por que tantos médicos continuam escrevendo? Outra pergunta que ouço com freqüência quando viajo para outros estados, ao saberem que, além das minhas atividades acadêmicas, também escrevo, surge a outra: “Mas por que vocês gaúchos gostam tanto de escrever?”
Vamos por partes. Sobre os médicos escritores, não se torna difícil estabelecer um marco para dizer: foi aqui que começou a escrita técnica e literária dos médicos.
Os textos iniciais que serviram de orientação para a Medicina Ocidental surgiram na Grécia Antiga, na época que foram escritos os textos dos filósofos que moldaram a Cultura Ocidental: Platão, Sócrates, Aristóteles e muitos outros. Nos primórdios da Civilização Grega, as doenças eram entendidas como um castigo provocado pela ira do deus Apolo. Diante de uma doença, para a obtenção da cura, estabelecia-se uma relação entre pessoa enferma, médico e deus Apolo e, mais tarde, a seu sucessor, Asclépio. Foi Hipócrates quem rompeu esta relação. Seus 72 livros publicados contêm descrições e expressões que são um misto de conhecimentos de medicina e textos literários. Por exemplo, sobre o exame do paciente, Hipócatres rompe a relação do médico com deuses e a desloca para uma relação entre duas pessoas: o médico e o enfermo. Sobre esse deslocamento do foco, ele nos deixou o primeiro legado de como deve se desenvolver uma boa relação médico-paciente: Examinar o corpo requer visão, audição, olfato, tato, paladar e razão. Princípios que todo o que pretende honrar sua profissão deve seguir até hoje. Sobre a relação de Hipócrates com as artes, convém citar o aforismo que é lembrado com alguma freqüência: “A vida é curta, a arte é longa, a ocasião fugidia, a experiência enganadora, o julgamento difícil”.
A partir de Hipócrates, o Pai da Medicina, os médicos trabalham com o corpo e os sentimentos das pessoas. Registram suas queixas físicas e suas dores da alma. Nesta singular relação, convivem com milhares de pessoas, e com a desafiadora peculiaridade de que nenhuma é igual à outra. Mesmo com toda essa gama de responsabilidades e trabalho, os médicos nunca se contentaram em só registrar as particularidades das doenças dos seus pacientes. Quando me perguntam, com ares de curiosidade ou com certa perplexidade: ─ Por que mesmo os médicos escrevem ficção? ─ tenho respondido com algo que me ocorreu, nos últimos tempos: Os médicos são perdedores, um dos motivos que os levam a escrever, é para criar pessoas imortais. Isto por uma razão muito clara: todas as pessoas que cuida ou cuidou vão morrer. Enquanto preparava este texto, ocorreu-me outra explicação, um pouco mais estranha ou singular do que essa. Mesmo por me soar estranha, introduzi no texto, para ver o que vocês acham dela. O trabalho do médico, na sua lida cotidiana com a vida e a morte, não travaria uma luta parecida com a que praticam os que procuram a verdade? Procuram, procuram e nunca encontram.
O poeta, historiador e professor de Literatura, Guilhermino César, na sua obra Notícias do Rio Grande Literatura faz uma afirmativa assaz interessante para nosso tema de hoje. Diz ele Numa época em que não havia no Brasil cursos de Letras, as Escolas de Medicina eram verdadeiros berçários de escritores. Entretanto, mesmo após a disseminação das faculdades de letras, a medicina tem legado à literatura escritores expoentes. Dentre eles, destacava, então: Aureliano de Figueiredo Pinto, Dyonélio Machado, Cyro Martins e Moacyr Scliar.
Para mostrarmos o quanto essa afirmativa tinha suas razões, lembramos que, em 1914, dois anos depois de fundado o Centro Acadêmico de Medicina de Porto Alegre, os alunos lançaram a revista Vida e Arte, na qual eles publicavam contos, poesias e desenhos satíricos. “Em 1937, Balbino Marques da Rocha satiriza a vida da Faculdade de Medicina da UFRGS em versos que foram publicados pela Editora Globo, e que alcançaram grande repercussão, mesmo fora do âmbito da faculdade, com o título de: Estância de Dom Sarmento.”
Na nossa turma médica, de 1965, tínhamos nosso jornal semanal intitulado O Pascoal. Nele publicávamos poesias, histórias satíricas curtas, contos e informativos sobre esportes e o nosso Clube de Cinema. Em cada encontro anual que realizamos, até hoje, O Pascoal nos acompanha. Ele faz o convite e distribui a programação.
Feitos estes devaneios, passamos à outra freqüente pergunta: “Por que vocês gaúchos gostam tanto de escrever?”
Atrevo-me entrar nesta delicada seara, mais por desafio para mim do que por conhecimento de causa.
Mas vejamos certos fatos históricos e algumas coincidências que podem me ajudar nesta resposta. Precisamos, antes, entender como se regem as relações de continuidade sócio-antropológicas sobre o meio. Sabemos que existe o componente genético biológico que é o determinante e a “genética social.”. A genética biológica é imutável e a genética social seria aquilo que conhecemos como “escola da vida.”. Isto é, as pessoas aprendem por exemplos. Daí então a importância do mito, para que possa servir de modelo para os jovens, pois eles procuram seguir os passos do vencedor. Poderíamos, então, vincular a seqüência de escritores gaúchos, ao longo desses cento e sessenta anos do surgimento da Divina Pastora e do Corsário, de Caldre e Fião? E este não teria alimentado seu imaginário ao constatar que seus conterrâneos gaúchos eram pessoas que falavam, vestiam, trabalhavam, comiam de modo bem diferente dos habitantes da Capital do Império? Por que não fazer, então, o que fizera seu colega médico Joaquim de Macedo, que dera voz às personagens urbanas de A Moreninha? “Este povo tão bravo nas suas lutas, tão distante do poder, tão desconhecido, devia ser mostrado”, deve ter pensado Caldre e Fião, ao apanhar a folha de papel em branco. Dessa idéia, talvez absurda, podemos entender a influência do Partenon Literário, criado em Porto Alegre, em 1868, sobre os escritores que surgiram depois. Como veremos numa passagem do texto colhido do Ensaio de Álvaro Porto Alegre, em comemoração aos sessenta anos de fundação daquele centro literário e cultural.
“A finalidade do Partenon não se restringia somente à literatura. Foi muito além. Além de Literatura, o Partenon cuidou de filosofia e história; organizou na sua sede uma biblioteca; criou aulas noturnas gratuitas; instituiu o regime de conferências; realizava saraus e editava uma bem cuidada revista. Só isto? Não! Foi igualmente humano, quebrando lanças pelo abolicionismo, sofrendo rudes golpes dos escravagistas e aumentando a ojeriza que lhe tinham retrógados. Enquanto isto ocorria, com destemor e desprendimento, sobranceira e generosa, prosseguia a benemérita associação, libertando, por sua conta, não pequeno número desses desventurados seres, tratados, em determinados períodos, como irracionais, sendo alguns, não vendidos a peso de dinheiro, mas barganhados por bovinos e eqüinos, por seus algozes. Assim, não posso fugir ao dever de relembrar uma festa que as gerações novas talvez nem de leve conheçam. Festa transcendente que nenhuma outra em todo o Rio Grande do Sul e talvez mesmo em todo o Brasil se lhe compare. Refiro-me a célebre noite de 19 de setembro de 1869, quando a sociedade Partenon Literário leva a efeito no Teatro São Pedro um festival com a representação de uma cena dramática, terminando a festa com o enternecedor desfilar, sob o pavilhão nacional, de 21 crianças que recebiam, nessa ocasião luminosa de clarões benditos, as suas cartas de alforria, outorgada por essa respeitável sociedade. Recordando esta passagem do Partenon Literário, convém transcrever a manifestação do presidente honorário, Dr Caldre e Fião sobre o memorável evento publicado na Revista de setembro de 1869.
“ Formulamos a idéia, esboçamos o programa. O Parteno aceitou-os; fez mais do que tínhamos imaginado. A festa, em comemoração ao dia nacional, devia ser feita, dando-se liberdade aos inocentes, às crianças que pudéssemos haver do berço escravo. O Partenon fez correr uma subscrição entre a população e tudo dispôs para exibir um espetáculo de gala em honra do 7 de setembro, cujo produto integral seria destinado à manumissão. Era férvido o entusiasmo da mocidade; os liberais concorreram, um apoiado bem pronunciado partiu do seio do diretório liberal, o nobre e elevado coração do exmo. Sr. Conselheiro conde de Porto Alegre não ficou estranho à idéia, adiantando-se na arena e traçou um pensamento digno do generoso povo rio-grandene, criando a Sociedade Libertadora dos Escravos, cujos estatutos acabam de ser aprovados. Os escravagistas estremeceram, alguns senhores mal intencionados especularam; bagagem dos partidos, essa turma que está sempre à mercê do poder, riu-se com estúpido desdém, e a situação pressentiu um golpe certeiro que lhe dirigíamos. Daí os óbices, as dificuldades com que o Partenon teve que lutar e que retardaram a festa santa da liberdade até o dia 19. Mas, enfim, chegou o momento. O Partenon, radiante em seu triunfo, ia desfechar um tremendo golpe nos prejuízos e falsas idéias de muitas gerações que foram nas passadas idades. Era a abolição da escravidão doméstica, no seu mais esplêndido aparato. Artigos de jornal, uma longa e bem dirigida propaganda não valem o mundo das idéias, de grandiosos pensamentos que ali iam reunir-se. O teatro estava literalmente cheio, não havia lugar vago em todo o salão, nem nos camarotes. A ansiedade, a expectativa públicas eram imponentes. Levantou-se o pano; era o Elogio Dramático que havíamos esboçado, e cujos versos déramos à composição dos jornais e à ardentes poetas da nossa cidade, que ia ser recitado.
A Liberdade, visitando as plagas brasileiras, encontra o Brasil, tão varonil antes, lânguido e triste; anima-o e, reparando para o fundo da floresta, vê o Escravo lugubremente cantando, coberto de andrajos e cicatrizes recentes, entregue à lida diurna. Compreende a sorte do Brasil e invoca o auxílio do céu; desce então um anjo mensageiro. Prediz a abolição gradual e entrega o Escravo à Liberdade, como uma promessa de Deus e, indo ao fundo, ordena como um meio prático a libertação dos ventres, que é simbolizada por um grupo de vinte e uma crianças que o Partenon havia libertado e que ali estavam pendentes dos seios maternos, de suas mães ainda escravas.
A este espetáculo as lágrimas correram e o entusiasmo dos corações sensíveis tocou até ao delírio. Houve em todo o auditório uma abstração feliz, ninguém pensou no abuso da autoridade que representa a atual situação, era só a nação que ali estava e cujas fibras tangiam, com força varonil, gratos sons do hino nacional; depois foi só a liberdade que ocupou todos os espíritos quando levantamos os vivas à nação, ao progresso e à liberdade.
Foi como presidente honorário do Partenon que ali fizemos ouvir nossa voz. Foi longa a impressão da abolição prática produzida no auditório pelo Elogio. Nós o terminamos dando as cartas de liberdade aos inocentes ali reunidos.
Marcou-se uma época. Porto Alegre há de lembrar-se sempre do dia em que se levantou bem alto no conceito da humanidade.”
Pela empolgante manifestação de Caldre e Fião durante o memorável evento realizado no Teatro São Pedro pode-se imaginar que, com seus dois textos longos, suas inúmeras peças teatrais e crônicas constantes, ele tenha deixado raízes que estimularam as futuras gerações de escritores.
Supõe-se que Simões Lopes Neto, anos mais tarde, tenha convivido com os provocantes estímulos de uma Rio de Janeiro em plena efervescência das reformas do prefeito Pereira Passos e dos escrito do mestre Machado de Assis. Ao regressar a seus pagos de Pelotas, entendeu que havia ali um povo peculiar que precisava ser cantado em prosas, para ultrapassar o limite do pampa que fez.
Os médicos escritores que vieram depois, ao aprimorarem seus conhecimentos no Rio de Janeiro, possivelmente, se surpreenderam com a diferença que separava a gente do Rio Grande do Sul da gente da Capital do Brasil. Havia ainda os estímulos de seus dois conterrâneos escritores vencedores: Alcides Maya e Augusto Meyer, ambos membros da Academia Brasileira de Letras. Desse veio se alimentaram Dionélio Machado e Cyro Martins, Érico Veríssimo e muitos outros escritores gaúchos, que serviram de estímulo para outras gerações. Para Moacyr Scliar, além desses estímulos, havia a vida peculiar do seu berço e dos habitantes do Bairro Bom Fim de Porto Alegre. Havia a viagem no mundo da leitura, os estímulos do seu grupo literário de estudantes na Faculdade de Medicina. Havia as experiências com a vida e a morte dos pacientes sofredores da Santa Casa de Misericórdia. Havia, mais tarde, sua formação de médico sanitarista e seu trabalho com a saúde de populações.
As gerações mais novas, certamente, foram influenciadas e nutridas pelas oficinas de criação literária, que iniciaram há mais de vinte anos em Porto Alegre, tendo como pioneira, a Oficina de Criação Literária do Programa de Pós-Graduação de Letras, da PUC, coordenada pelo professor e escritor Luiz Antônio de Assis Brasil.
Feitas essas observações, antes de entramos na cronologia da nossa tarefa, falta dizer que, se este encontro fosse realizado em outro estado brasileiro, diferentes escritores seriam lembrados aqui.
Ao atermo-nos aos primórdios do aparecimento da literatura brasileira, identificamos que os médicos surgem com seus textos longos junto com os romancistas de maior destaque, na metade do século XIX. E, para nosso orgulho, os escritores médicos, que ficaram na história, pela qualidade e ou pioneirismo dos seus textos, começam um pouco antes dos médicos ligados à ficção do mundo desenvolvido, do Século XIX.
Claude Bernard nasceu na cidade que seria hoje Amsterdam, Holanda, em 1813 e faleceu na França em 1878. Como já dissemos antes, Claude Bernard, antes de ser médico e se tornar um dos maiores cientistas de todos os tempos, na sua terra natal, ora um famoso escritor. Ao se mudar para Paris, a procura do centro mais importante das artes e das escritas, trocou a literatura pela ciência médica. Sua obra como cientista foi a que ficou para a posteridade.
Joaquim Manuel de Macedo
No Brasil, ocorreu o contrário. O primeiro romancista que publicou obra longa e de qualidade foi o médico Joaquim de Macedo, ao publicar, em 1844, a Moreninha. Joaquim de Macedo, natural de Itaboraí, Rio de Janeiro, nascido em 24 de junho de 1822, ao contrário de Claude Bernard, formou-se médico pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, mas ao se tornar famoso como escritor, abandonou cedo a profissão e passou a se dedicar ao ensino de História e Geografia, no Colégio Dom Pedro II, à literatura e à política. Como político, foi eleito por duas legislaturas à Assembléia Provincial do Rio de Janeiro, pelo Partido Liberal. A Moreninha faz parte das obras brasileiras do período romântico, que seguiam as recomendações da época: “A organização interna de um romance romântico pressupõe a obtenção de um equilíbrio estável que fecha a ação e põe fim às peripécias, geralmente colocadas como série de obstáculos que devem ser superados pelos heróis. O discurso remete à uma prática virtuosa nos moldes em que se enquadraria em substituir, com a moral do dominante: a nobreza. As personagens são representantes da sociedade da época, com seus usos e costumes.
No caso da A Moreninha, os personagens Felipe, Leopoldo, Fabrício, Augusto, estudantes de medicina, decidem visitar a avó de Felipe que mora numa ilha. Felipe, para animar Augusto a acompanhá-los diz que tem quatro primas. Segreda, depois que tem uma irmã, de quatorze anos: Moreninha. Augusto fica todo aceso, mas ainda relutante em acompanhar os colegas.
Rafael é o moleque de Augusto, o faz-tudo, de entregador de recado, a condutor do burity, comprador na quitanda, pretinho que fazia parte das famílias da época, ainda em plena escravatura no Brasil.
Tobias é o moleque escravo da Dona Luiza, entregador de recados para a filha Joana, por quem Fabrício se encanta durante uma sessão de Teatro. Fabrício manda uma longa carta para Augusto, antes de partir, na companhia dos outros dois, em visita a avó, na Ilha, na qual relata que está pobre e apaixonado por Joana, prima de Felipe. No fim da carta, Fabrício propõe que Augusto vá junto com eles à Ilha e lá deverá tentar seduzir sua namorada. Fabrício se mostrará indignado, esbravejará contra a vida volúvel das mulheres. Consumado o desfecho, lhe será muito grato, por ter se livrado do terrível incômodo que é Joana para ele: uma paixão incontida.
Augusto chega à Ilha no sábado de manhã e Leopoldo espera por ele, para mostrar-lhe, de antemão, as belezas da Ilha. À noite, Felipe apresenta sua avó, dona Ane a Augusto e as demais pessoas que ali se encontram, dentre elas, duas primas: Quinquina e Joaninha. Daí surge a velha Violante, uma hipocondríaca, que o impede de se dirigir ao alvo maior: a irmã mais jovem de Leopoldo.
Citei algumas passagens de cenas e personagens para registrar que A Moreninha tem uma história de cunho urbano, com personagens que fazem parte da elite dominante da cidade do Rio de Janeiro, ao contrário dos romances que surgem mais tarde, que têm como seu pioneiro, José de Alencar. Ao contrário do romance de Macedo, os romances de Alencar têm um enredo de ufanismo sobre nossa terra, nossas florestas, sobre os feitos heróicos dos índios e das batalhas de que participaram. Ao contrário das sociedades mais antigas, no novo mundo não tínhamos uma longa história para contar sobre reis, rainhas, impérios, como fizera o magistral William Shakespeare ou os heróis das conquistas de cavalaria, como Os Três Mosqueteiros, de Alexandre Dumas ou anti-heróis, como fez Cervantes, com o lendário Dom Quixote de La Mancha. Por isso, Moreninha, além de ser o pioneiro dos romances brasileiros, se caracteriza, também, por dar vida às personagens num contexto social da cidade em formação.
José Antônio do Valle - Caldre e Fião nasceu em Porto Alegre em 15 de outubro de 1821 e faleceu em 19 de março de 1876. Pouco é conhecido de sua vida entre 1838 e 1845, quando se mudou para o Rio de Janeiro. Mas em 1845, aos 25 anos, ele comparece na literatura médica, como um entusiasta do sistema terapêutico estabelecido por Hahnemann. No mesmo ano, publica: Elementos da farmácia Homeopática para uso da escola de Medicina Homeopática do Rio de janeiro e da curiosa mocidade brasileira e portuguesa que quiser estudar este ramo de ciência médica
Caldre e Fião foi também Presidente Honorário do Partenon Literário de Porto Alegre, jornalista, teatrólogo, fervoroso e atuante abolicionista.( Blau F. de Souza, em Médicos PR(ESCREVEM - 2001).
Em 1847, apenas três anos após o lançamento de A moreninha, o médico gaúcho, José do Valle Caldre e Fião publica, no Rio de Janeiro, seu primeiro romance: A divina pastora. A trama central da narrativa se desenvolve durante a Revolução Farroupilha. A Divina Pastora é o primeiro livro a registrar as falas e os costumes do gaúcho dos Pampas. A expressão Centauro dos Pampas, que acompanha as manifestações tradicionais do povo gaúcho até hoje, foi por ele usada numa de suas cenas. O romance é um olhar do homem da cidade para a vida mais importante que havia na época: a campanha. Toda a atividade da Capital se fazia com um olhar de onde provinham os produtos para o sustento e para a exportação, e todo o dinheiro que fazia circular os negócios da Capital. Como se constata, pela fala das personagens e pelos cenários por onde circulavam, os textos se alimentavam do vértice Republicano da Revolução Farroupilha e do Gaúcho, Centauro dos Pampas, que almeja uma república, sem escravidão. Por atacar em seu enredo, o Império e defender a abolição da escravatura, o livro desapareceu das bancas do Rio de Janeiro, logo que foi lançado e só foi recuperado um exemplar em Montevidéu, 144 anos após. Esta obra tem o mérito, ainda de descrever, com detalhes, a natureza, as ruas, os arraiais, as casas, as igrejas, as novidades da época.
Seu segundo romance, O Corsário, foi publicado em 1849, dois anos após o primeiro. O texto, também, tem seu centro da história em feitos heróicos desta parte Meridional do Brasil: Guerra Cisplatina e Guerra dos Farrapos. As personagens vivem uma época de guerras e se movimentam entre tropas de Bento Gonçalves. Os cenários são ricos de informações sobre as paisagens, os meios de transportes da época, a navegação lacustre entre Porto Alegre e Viamão e marítima, entre Tramandaí e São José do Norte. Na página 85, há uma singular descrição: “O Viamão compreende todos os capôs que se estendem do começo das abas da Serra até a margem do Guaíba, compreendido pelos rios Gravataí e Capivari. Eles estão derramados por uma cadeia contínua de montanhas, uma extremidade das quais se perde da parte da Serra, e a outra, nas águas salgadas da bacia do Guaíba. Quando os antigos paulistas coritibanos chegaram a esta última extremidade, ficaram estupefatos na presença da disposição natural dos rios que aí vinham desaguar e que apresentavam a forma de uma mão; sendo por isso que, ao voltarem aos seus lares nas serranias da Coritiba, diziam, cheios de orgulho: eu vi a mão; cousa esta que deu origem aos nomes que estes campos têm até hoje conservado.”
Felipe, uma das personagens centrais, mora em Tramandaí e vive da pilhagem dos navios naufragados. O corsário Vancini, aventureiro veneziano, teria participado das Guerras Cisplatina, a soldo dos países envolvidos. Com a Guerra dos Farrapos, se aliara ao grupo de Bento Gonçalves, mas é visto pelo narrador como um pirata inescrupuloso, oportunista e perigoso. Pois este pirata seduz e rapta, com seu barco, Maria, filha de Felipe e leva-a para o sul. Ao chegar em São José do Norte, Matias, homem honesto e muito bem situado nos negócios, ao ficar sabendo que Maria, filha de seu amigo Felipe, fora raptada pelo sedutor Vancini, pede a ajuda a outros dentre eles seu filho Paulinho e o amigo Manuelzinho, para libertar Maria das garras do facínora. Por sorte, Maria não tinha deixado se seduzir de um todo. Não cedera às investidas do cruel bandido e fora devolvida a seus pais ainda pura e imaculada.
Todas as personagens femininas, no romance, são de uma pureza imaculada. Daí então a riqueza singular que possui para o entendimento das sociedades em suas épocas. Como ressaltam os críticos literários Sílvio Romero e José Candido, quando identificam na obra literária um objeto estético e uma articulação com elementos extra-literários, pertencentes à sociedade no período em que a obra foi composta
Este olhar sobre o Centauro dos Pampas se mantém predominante na narrativa gaúcha, através das décadas. Para se ter idéia da força que a campanha exercia sobre a vida da cidade, vejamos o que diz Apolinário Porto Alegre no seu romance O Monarca da coxilha, publicado em 1875. Os Rio-grandenses têm em nenhuma monta os tronos e os cetros. Para eles, uma boa equitação vale uma monarquia, um bom cavaleiro é um grande monarca. Quem não conheceu os costumes de nossas vastíssimas campanhas, há de estranhar que uma só família às vezes seja o tronco de uma série de monarquias. E por Deus! Valem mais que os testas coroados os valentes campeiros do rio Grande. Ao menos sob cada poncho, palpita um coração onde a liberdade entronizou-se; em cada pulso lampeja uma espada ou uma lança que fará tremer a tirania.
Anton Paolovitch Tchekhov nasceu em Taganrog em 29 de Janeiro de 1860 e faleceu em Badenweiler, em 14 de Julho de 1904. Foi um importante escritor e dramaturgo russo, considerado um dos mestres do conto moderno. Era também médico, exercendo a Medicina durante o dia e frequentemente escrevendo à noite. Era filho de Pavel Egorovic Cechov e de Evgenija Jakovlevna. As origens da família são humildes. O avô de Cechov, Egor Cechov, foi um servo que comprou a sua liberdade do Kreopostnoje Pravo. Pavel tinha então dezesseis anos.
Numa carta de 1889 ao seu irmão Aleksandr, Anton Cechov resume a sua infância na seguinte frase, plena de ironia: "Filho de um servo, ... servente de loja, cantor na igreja, estudante do liceu e da Universidade, educado para a reverência de superiores e para beijos de mão, para se curvar perante os pensamentos alheios, para a gratidão por qualquer pequeno pedaço de pão, muitas vezes sovado, indo à escola sem galochas
Dentre sua vasta, produzida nos gêneros conto, teatro e romance, escritos entre 1880 e 1900, destacam-se:: No mar da Criméia. Varka. O vingador. Um caso médico. Angústia... A feiticeira· A mulher do farmacêutico. O bilhete premiado. O bispo. A noiva. O caçador. O Monge Negro.
Ao contrário dos médicos que se tornaram escritores no Brasil, Tchekhov já era escritor famoso, quando se formou em medicina.
Simões Lopes Neto. O maior escritor regionalista do Rio Grande do Sul, Simões Lopes Neto, nasceu em Pelotas, em 9 de março de 1865, na Estância da Graça, a 29 quilômetros da cidade e de propriedade de seu avô paterno, João Simões Lopes Filho, o Visconde da Graça - que chegou a ter uma orquestra particular composta por escravos em sua grande fazenda. Aos treze anos, foi para o Rio de Janeiro, estudar no famoso colégio Abílio. Em seguida, teria freqüentado até a terceira série da Faculdade de Medicina. Sua primeira aparição na imprensa pelotense ocorreu no jornal Pátria, de seu tio, Ismael Simões Lopes, onde criou a coluna Balas de Estalo. Entre 15 de outubro e 14 de dezembro de 1893, sob o pseudônimo de Serafim Bemol, em parceria com Sátiro Clemente e D. Salustiano, escreveu, em forma de folhetim, "A Mandinga", poema em prosa no "Correio Mercantil". Entre 1895 e 1913 restabeleceu a coluna Balas d'Estalo no Diário Popular; em 1913 e 1914, sob o pseudônimo João do Sul, assinou as crônicas de Inquéritos em Contraste nas páginas de A Opinião Pública; de 1914 a 1915 ocupou a direção do Correio Mercantil; em 1916, voltou para A Opinião Pública com a coluna Temas Gastos. Publicou três livros em vida, todos lançados em Pelotas, pela Livraria Universal: Cancioneiro Guasca (1910), Contos Gauchescos (1912), Lendas do Sul (1913). A julgar pelos sonhos literários que acalentou, sua bibliografia era para ter sido bem mais volumosa. Ele próprio chegou a anunciar, por intermédio de seu editor, a existência de nada menos de seis outros livros, dois "a sair" (Casos do Romualdo e Terra Gaúcha) e quatro "inéditos" Dona, Jango Jorge, Prata do Taió e Palavras Viajantes). Morreu em 14 de junho de 1916, em Pelotas, aos cinqüenta e um anos, de uma úlcera perfurada. Para arrecadar algum dinheiro, Dona Velha fez um leilão de toda a documentação do marido, mas ninguém se interessou. Então toda a obra do escritor se dispersou entre colecionadores, bibliotecas e museus.
João Eichoff nasceu Bremem, Alemanha, por volta de 1850. Aos dezoito anos de idade emigrou, junto com seu irmão Luís, para Montevidéu. Mais tarde, Luís que era de profissão marceneiros, emigrou para Porto Alegre, onde se tornou um profissional reconhecidos, chegando a construir móveis para Carlos Von Koseritz e Gaspar Silveira Martins. O irmão, João, depois de emigrar, também, para Porto Alegre, passou a trabalhar numa farmácia. Com a publicação da Lei Saraiva, 1881, que dava o direito a voto aos evangélicos os dois irmãos se tornaram eleitores. Mais tarde, por influência da maçonaria, ingressaram na política o obtiveram a nomeação de um cartório em Dois Irmão. Com a ajuda do sogro de Luís, eles montaram uma importante serraria em Sapiranga. Como sucesso econômico, surgiu a liderança política, a casa dos Eichoff tornou-se para da obrigatória dos candidatos em campanha política, como Júlio de Castilhos, Assis Brasil e Barros Cassal.
Quando Júlio de Castilhos assumiu o poder, pelo fato de que, em Três Corroas, o candidato de oposição, Barros Casal, nas eleições de 1891, ter obtido ampla vitória, passou a perseguir os adversários políticos. Foi então que começaram as desventuras dos irmãos Eichoff. Para se evadir à degola mandada executar pelo prefeito de Taquara, aliado de Júlio de Castilhos, João Eichoff deixou a família e refugiou-se na serra, junto aos maragatos que lutavam contra os ximangos, para impedir que as armas chegassem às mãos dos comandantes Cel. Salvador Pinheiro Machado e o General Francisco Rodrigues Lima. Durante um longo período, entre lutas, prisões e trabalho, João se dividia na assistência à a família, às fugas e ao trabalho carpinteiro e de médico. Acusado por trapaça em contrabando de gado, João acabou no xadrez de Porto Alegre e condenado à morte por fuzilamento. Liberto da prisão entre 1894-1895, os irmão vendem suas propriedades e se mudam para Ijuí. Médico homeopata ou prático licenciado, o certo é que João Eichoff era chegado às letras, e desde a década de 1880 colaborou no Koseritz Deutsche Volkslender, quando publicou os seguintes textos: Das Fleisch – A carne, Lebenmittel – Mantimentos Der Schlangenbiss und seine Heiluung – Mordida de cobra e sua cura e Die Pcken, auch Blattern gennat, und die Achutzmittel dieselben – A Varíola e suas medidas preventivas. Em 1915, editou o Doutor maragato no Kalender für die Deutschen in Brasilien(São Leopoldo). No Familienfreud Kalender de 1916 publica o conto: Mitten im Liben sind wir Von Tod umgeber – Em meio a vida estamos cercados pela morte.
Em 1917, por atender graciosamente a população de Ijuí, durante a epidemia da febre espanhola, a população lhe erigiu um monumento.
No seu livro O doutor maragato, João Eichoff nos deixa um relato fiel do que fora a terrível guerra de 1893 a 1895, da qual ele participou como médico das tropas, médico da comunidade e como carpinteiro . O texto serve, também, para ver como eram absurdas as leis castilhistas sobre a liberdade profissional no Estado. João Eichoff era carpinteiro e médico, sem nuca ter estudado medicina.
Mário Totta nasceu em Porto Alegre em 5 de janeiro de 1874 e faleceu em 17 de novembro de 1947. Em Porto Alegre, no final do Século Dezenove surgiu um grupo de cronistas chamados modernos, do qual fazia parte Mário Totta. Cronista perspicaz, crítico mordaz dos costumes da época, teve o mérito de publicar, junto com os cronistas do jovem jornal Correio do Povo, José Paulino Azurenha e José Carlos de Souza Lobo, o primeiro romance com olhar voltado para cidade: Estrychnina. A narrativa, publicada em 1897 foi baseada num fato verídico de um casal de apaixonados, Neco Borba e Chiquinha Gomes que, por dificuldades financeiras, se suicidam com a ingestão de Estricnina. O romance é uma transposição de um fato real para a narrativa longa, somente trocando os nomes das personagens. Este texto tem o mérito de ser a primeira narrativa longa, cujos personagens circulam, vivem e morrem numa cidade em grande transformação, como era Porto Alegre na época. Seria algo semelhante ao que se passara em Paris, de 1850 a 1870, quando da grande reforma introduzida pelo Barão Haussmann. Neste período, o poeta e escritor Beaudelaire, defensor das mudanças, fazia suas personagens circularem pelas novas e longas avenidas e pelos extensos bulevares. As pessoas viviam e morriam no que havia de mais moderno então: o burburinho das cidades, seus encantos, suas tragédias.
Dois anos após, em 1899 Mário Totta ingressou na Faculdade de Medicina e Farmácia, formando-se na primeira turma, em 1904, com mais dez colegas, dentre eles uma mulher e sendo o orador da solenidade. Foi professor e médico muito conceituado, sem nunca abandonado suas crônicas no Correio do Povo.
Ramiro Fortes de Barcelos nasceu em Cachoeira do Sul em 23 de agosto de 1851 e faleceu no dia 29 de janeiro de 1916, em Porto Alegre. Formou-se em 1873, pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Fora cronista polêmico, desde os bancos escolares. Ainda quando estudante de medicina publicou diversas críticas contra o Professor João Vicente Torres Home, filho do consagrado Professor Joaquim Vicente Torres Home. João Vicente Torres Home, além de ser o mais ilustre professor da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, era médico pessoal do Imperador Dom Pedro II e conselheiro do Império.
“Segundo Augusto Meyer, foi Guilhermino Cesar quem descobriu no jornal O Novo Mundo, da cidade de Rio Grande, as crônicas de Ramiro Barcelos publicadas com o pseudônimo de Amaro Juvenal, desde o ano de 1883.”
Ramiro Barcelos, depois de ser eleito constituinte pelo partido Liberal, transferiu-se para o lado de Júlio de Castilhos, sendo um dos seus maiores e mais fiéis aliados, desde os primeiros passos na fundação do Partido Republicano Rio-Grandense. Cronista assíduo do jornal de Júlio de Castilhos, A Federação, Ramiro Barcelos publicou inúmeras crônicas, geralmente, de crítica mordaz sobre assuntos políticos e a pessoas. Dentre essas, podemos destacar a Carta a D. Isabel, na qual ataca a política da regente. Oficial das tropas de Pinheiro Machado na Revolução de 1893, recebeu a patente de Coronel do Exército, das mãos de Floriano Peixoto.
Quando foi fundada a Faculdade de Medicina e Farmácia de Porto Alegre, em 25 de julho de 1898, Ramiro Barcelos era um dos médicos mais famosos da Capital. Por que não foi incluído entre os fundadores da Faculdade de Medicina e Farmácia de Porto Alegre? Não sabemos.
Ramiro Barcelos foi eleito Senador da República, junto com Pinheiro Machado. Durante seu mandato, criou inúmeras polêmicas com Rui Barbosa. Tempos depois, ocupou o cargo de Embaixador do Brasil no Uruguai. Em 1915, depois de romper com o perpétuo presidente do Estado, Borges de Medeiros, Ramiro Barcelos, usando o com o pseudônimo de Amaro Juvenal, publica o célebre poema Antônio Chimango, obra que passaria a ser cantada e declamada por milhares de peões em estâncias do todo o Estado..
Dionélio Machado nasceu em Quarai em 21 de agosto de 1895 e morreu em Porto Alegre, em 1985. Órfão aos 7 anos, quando seu pai foi assassinado. Aos 12 anos publicou seus primeiros versos: “As calças do Barbadão.” Ainda estudante de medicina, em 1927, publicou a coletânea de contos: Um pobre homem. Formou-se pela Faculdade de Medicina da UFRGS em 1929, dedicando-se a seguir a psiquiatria, formação que fez no Rio de Janeiro em 1930 e 1931. Trabalhou no Hospital São Pedro, por mais de 30 anos.
Em 1935, preso no Rio de Janeiro, por causa da Intentona Comunista, recebeu o Prêmio Machado de Assis, com seu romance: “Os ratos.”
Em 1923 publicou um ensaio sobre política intitulado Política contemporânea. Em 1942 publicou O Louco do Cati. Como acontecia com seu colega e conterrâneo, Cyro Martins, Dyonélio Machado alimentava sua inspiração literária em duas vertentes: no entendimento da alma humana pela psicanálise e nas memórias das personagens que marcaram sua infância na Quaraí. Surgem, então, em ambos, personagens que circulam pelo mundo moderno situado nas cidades e personagens dos tempos da juventude que se originavam do Pampa. Segundo Maria Zenilda Crawunder, no Memórias de Um Pobre Homem( Dyonélio Machado) “No final do século XIX , quando nasceu Dyonélio, além dos reflexos das idéias positivistas, da Proclamação da República, das mudanças econômicas resultantes da abolição da escravatura e ascensão industrial, no Rio Grande do Sul, foi marcada pelo final da Guerra do Paraguai e da Revolução Federalista, na qual lutaram, pelo poder, durante 3 anos, maragatos e chimangos, numa luta fratricida que ficou conhecida como “guerra suja.” Nos arredores de Quaraí, havia uma singular prisão a céu aberto, cavada na própria coxilha. Ali, as degolas eram freqüentes, fato na época denunciado até por Rui Barbosa. Era o Cati, sob o comando da figura mítica do general Castilhista, João Francisco Pereira de Souza, a Hiena do Cati, encarregado de “limpar a área” de liberais maragatos. A lembrança do Cati, mais tarde, deu ao escritor o pano de fundo para a criação de O Louco do Cati.”
Em 1947 publicou Memórias de Um Pobre Homem. Em 1966 publicou Deuses Econômicos.
Vale lembrar a citação de Artur Madruga sobre a vida de Dionélio Machado: Foi na medicina que teve seu sustento; na política, seu tormento e na literatura, seu alento.
João Guimarães Rosa O grande escritor brasileiro, João Guimarães Rosa, nasceu em Cordisburgo, Minas Gerais, em 27 de junho de 1908 e faleceu no Rio de Janeiro em 19 de novembro de 1967 Em 1925, matricula-se na Faculdade de Medicina da Universidade de Minas Gerais, com apenas 16 anos. Segundo um colega de turma, Dr. Ismael de Faria, no velório de um estudante vitimado pela febre amarela, em 1926, teria
dito a famosa frase: "As pessoas não morrem, ficam encantadas", que seria repetida 41 anos depois por ocasião de sua posse na Academia Brasileira de Letras. Sua estréia nas letras se deu em 1929, ainda como estudante, ao escrever quatro contos: Caçador de camurças, Chronos Kai Anagke (título grego, significando Tempo e Destino), O mistério de Highmore Hall e Makiné para um concurso promovido pela revista O Cruzeiro.
Todos os contos foram premiados e publicados com ilustrações em 1929-1930. Formou-se em medicina em 1930, quando foi escolhido, por aclamação, orador da turma. Em 1931, vai exercer a profissão de médico em Itaguara, pequena cidade que pertencia ao município de Itaúna (MG), onde permanece cerca de dois anos. Relaciona-se bem com a comunidade, até mesmo com raizeiros e receitadores, vê reconhecida sua importância no atendimento aos pobres e marginalizados, a ponto de se tornar grande amigo de um deles, de nome Manoel Rodrigues de Carvalho, mais conhecido por "seu Nequinha", que morava num grotão enfurnado entre morros, num lugar conhecido por Sarandi. Espírita, "Seu Nequinha" parece ter sido o inspirador da figura do Compadre meu Quelemém, espécie de oráculo sertanejo, personagem de Grande Sertão: Veredas.
Em 1934, o então Oficial Médico do 9º Batalhão de Infantaria, após alguns preparativos, seguiu para o Rio de Janeiro onde prestou concurso para o Ministério do Exterior. Depois de assumir sua nova profissão, passa exercer suas atividades em diversos países estrangeiros. Em 1952, um ano após retornar ao Brasil, faz uma excursão ao Mato Grosso. O resultado é uma reportagem poética: Com o vaqueiro Mariano. Segundo depoimento do próprio Manuel Narde, vulgo Manuelzão, falecido em 5 de maio de 1997, protagonista da novela Uma estória de amor, incluída no volume Manuelzão e Miguilim, durante os dias que passou no sertão, Guimarães Rosa pedia detalhes de tudo e tudo anotava "ele perguntava mais que padre," tendo consumido "mais de 50 cadernos de espiral, daqueles grandes", com anotações sobre a flora, a fauna, a gente sertaneja, usos, costumes, crenças, linguagem, superstições. Desta vasta experiência do autor com seres humanos das mais diversas inserções sociais, profissões, hábitos, falas, surgem as inovadoras e imortais obras do autor. Magma (1936), poemas. Não chegou a publicá-los.
Em 1946 publica seu livro de estréia, Sagarana Em 1947 publica: Com o vaqueiro Mariano. Em 1956 publica Corpo de Baile, novelas, atualmente publicado em três partes: (Manuelzão – Miguilim -No Urubuquaquá, no Pinhém e Noites do sertão.). Ainda em 1956 publica Grande Sertão: Veredas, romance. Em 1962 publica Primeiras estórias, contos. Em 1967, Tutaméia: Terceiras estórias, contos. Em 1969, Estas estórias, contos. Em 1970 publica Ave, palavra, diversos. Obra póstuma
Cyro dos Santos Martins. Cyro dos Santos Martins nasceu em Quarai em 05/08/1908 e faleceu em Porto Alegre em 15/12/1995. Formou-se médico na FAMED/UFRGS em 1933. Depois de trabalhar no interior por alguns anos, voltou a Porto Alegre para se dedicar à Psiquiatria e à Neurologia. Em 1937 se muda para o Rio de Janeiro, até 1939, para se aperfeiçoar nos estudos da especialidade. Mais tarde, viaja para Buenos Aires, a fim de realizar sua formação psicanalítica. Em 1935, em conferência, pela primeira vez, usa o termo gaúcho a pé, e publica sua trilogia (Sem rumo, Porteira fechada, Estrada nova).
Em 1957 publica Paz nos campos, reunindo contos e novelas que depois ele desdobrará em outras publicações. De 1958 a 1977, lança vários trabalhos científicos, dentre eles Do mito à verdade científica. (1964), A criação artística e a psicanálise (1970), Perspectivas do humanismo psicanalítico (1973), Orientação educacional e profilaxia mental (1974), Rumos do humanismo médico contemporâneo(1977), A criação artística e a psicanálise (1970), Perspectivas do humanismo psicanalítico (1973), Orientação educacional e profilaxia mental (1974), Rumos do humanismo médico contemporâneo (1977). Volta ao conto em A entrevista (1968) e em Rodeio (estampas e perfis) (1976). As revoluções de 1893 e 1923 servem de pano de fundo para o romance Sombras na correnteza (1979), no qual homenageia seu pai Bilo Martins, transformando-o em personagem como dono de um boliche de beira de estrada. Continua alternando publicações de caráter científico e literário, com o lançamento de Perspectivas da relação médico-paciente(1979).
Em 1980 publica A dama do saladeiro. Já a novela O príncipe da vila (1982) configura um salto ontológico em sua ficção, enquanto os ensaios de O mundo em que vivemos (1983) e A mulher na sociedade atual (1984) mostram o ensaísta preocupado com problemas nucleares de nosso tempo, em que sobressaem a situação, a condição e o papel da mulher na sociedade atual. A revolução de 1930 é revisitada com um olhar irônico no romance Gaúchos no obelisco (1984). Já no romance Na curva do arco-íris (1985) convivem o analista e o ficcionista. Ao completar 80 anos publica o romance O professor (1988), em que o poeta simbolista Alceu Wamosy aparece como personagem em plena Revolução de 1923. Ainda em homenagem aos seus 80 anos, um grupo de amigos lança o Prêmio Literário Cyro Martins que, em 1990, premia Petrona Carrasco, de Valter Sobreiro Júnior.
Em 1990 realiza seu incomum livro de memórias, em parceria com Abrão Slavutzky, Para início de conversa. E, em 1991, seu último trabalho de ficção, a novela Um sorriso para o destino. Ainda publicaria uma série de ensaios psicanalíticos, em Caminhos. (1993) e, quando seria de esperar que falasse de si mesmo, surpreende discorrendo sobre seus amigos poetas, pintores e ficcionistas, em Páginas soltas (1994).
Aureliano de Figueiredo Pinto nasceu na Fazenda São Domingos, distrito de Tupanciretã, no dia 01/08/1898 e faleceu em 22 de fevereiro de 1959. Participou como combatente voluntário nas tropas da Revolução de 1930. Formou-se médico na Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul em 1931, tendo cursado parte das cadeiras na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, onde lançou seu primeiro poema: O mar visto por um gaúcho. Médico atuante na cidade de Santiago do Boqueirão, poeta e romancista e fundador da Estância da Poesia Crioula. Surgiu com suas publicações depois do movimento modernista de 1922. No livro Notícias do Rio Grande, de Guilhermino César, Aureliano aparece como um dos escritores de destaque do Rio Grande do Sul. Em 1937, quando Érico Veríssimo e Dionélio Machado começam a surgir como escritores de reconhecimento nacional, Aurélio de Figueiredo Pinto escreveu Memórias do Coronel Falcão, livro recuperado e publicado pela Editora Movimento, em 1973. No final da vida, na década de 1950, publicou dois livros de poesia: Romances de Estância e Querência, e Armorial de Estância e Outros Poemas. Segundo consta, Aureliano de Figueiredo Pinto teria sofrido influência da obra de Simões Lopes Neto, descoberta por ele muito antes de Carlos Reverbel ter recuperado e publicado a notável produção literária do ilustre escritor pelotense.
Archibald Joseph Cronin
Cronin nasceu em 9 de julho de 1896 em Cordross, na Escócia e faleceu na Suíça em 1981. Quando, em 1914, a família mudou-se para Yorkhill, Glasgow, devido às excepcionais habilidades do filho Cronin, foi-lhe atribuída uma bolsa para estudar medicina na Universidade de Glasgow.
Ele esteve ausente durante o período de 1916-1917 porque esteve prestando serviços militar na Marinha Real, durante a Primeira Guerra Mundial. Cronin formou-se com maiores honras em 1919 e passou a conquistar graus acadêmicos adicionais, incluindo um Diploma em Saúde Pública (1923) e, em 1925, ele obteve o Grau MD, depois de defender tese na Universidade de Glasgow, com o trabalho intitulado "A História de Aneurisma." Depois da guerra, ele trabalhou em vários hospitais antes de assumir as suas primeiras práticas como médico em Tredegar, uma cidade mineira no sul do País de Gales. Em 1924, ele foi nomeado Inspetor Médica para as Minas da Grã-Bretanha. Durante os anos de sua atividade neste setor, publicou diversos relatórios e artigos sobre a correlação entre o pó de carvão inalados e doenças do pulmões. Em 1930, enquanto em férias, Cronin escreveu seu primeiro romance, o Castelo de Hatter, no espaço de três meses. O manuscrito foi aceite logo pela editora Gollancz. O romance foi um grande sucesso, lançando sua carreira como um autor profícuo.
Muitos dos seus livros foram best-sellers e traduzidos para inúmeras línguas. Seus pontos fortes incluíam a habilidade da narrativa e seu agudo poder de observação e descrição das cenas e dos cenários. No romance a Cidadela, além de descrever com riqueza de detalhes as peculiaridades da prática médica de um clínico e cirurgião geral no interior, com os parcos recursos, clamava pela criação do Serviço Nacional de Saúde no Reino Unido. Ao se tornar famoso e rico, abandonou a medicina e Ao se tornar famoso e rico, abandonou a medicina, mudou-se o País de Gales, depois para Londres e Estados Unidos da América do Norte e passou a se dedicar unicamente à literatura.
Fernando Gonçalves Namora nasceu em Condeixa-a-Nova, em 15 de abril de 1919 e faleceu em Lisboa, em 31 de janeiro 1989. Formou-se em Medicina pela Universidade de Coimbra, tendo a sua profissão de médico grandemente influenciado a sua obra ficcional, em especial na obra Retalhos da Vida de um Médico e Domingo à Tarde. Fernando Namora foi poeta do Novo Cancioneiro, tendo, nos seus primeiros livros de ficção, partilhado das idéias do Neo-realismo. Mais tarde enveredou por um caminho mais próprio. Já nos tempos de estudante, no Colégio Camões, em Coimbra, publica seu primeiro romance, As Sete Partidas do Mundo. Em 1932, ao se transferir para o Liceu Camões, de Lisboa, passa a redigir e a ilustrar o jornal manuscrito do Liceu. Acentua-se ali a sua vocação para as artes plásticas, manifestada desde a infância. Em 1935, regressa a Coimbra para estudar no Liceu José Falcão, onde assume a direção do Jornal acadêmico, Alvorada. Durante esse período publica a coletânea de novelas intitulada Almas sem Rumo. Em 1936, matricula-se nos preparatórios médicos da Faculdade de Medicina de Coimbra. Juntamente com Carlos de Oliveira e Artur Varela publica, em 1937, o livro de contos Cabeças de Barro.
Em 1942, depois de formado em Medicina abre consultório em Condeixas. Antes de ser admitido no Instituto Português de Oncologia, em Lisboa, em 1964, trabalhou em diversas províncias do interior. A convivência com as pessoas rudes e autênticas propiciaram-lhe uma experiência humana extremamente rica. Foi conhecendo-as que Namora pode escrever Retalhos da vida de um médico, livro que muito o ajudou a obter reconhecimento público e ingressar no editorial internacional. Em 1938, publica seu primeiro livro de poemas, Relevos, e seu romance As Sete Partidas do Mundo, que obteve o Prémio Almeida Garrett. A partir daí, Fernando Namora mantém atividade constante de escritor e médico até 1965, ano em que abandona a medicina para se dedicar por inteiro à escrita.
Pedro Nava nasceu em Juíz de Fora, Minas Gerais, em 05/06/1903 e faleceu no Rio de Janeiro(suicídio) em 13/05/1984. Formou-se médico pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal de Minas Gerais em 1927. Depois de se mudar para o Rio de Janeiro, fez parte do grupo dos grandes escritores e poetas da sua época. Destacou-se como médico, memorialista, poeta, romancista, cronista, pintor, desenhista e de textos científicos ligados à história da medicina.
Em 1973, recebe os Prêmios Luísa Cláudio de Sousa (do PEN Clube) e Personalidade Global - Setor Literatura (Rede Globo de televisão e jornal O Globo) Em 1974 publica Balão cativo. E 1975 e recebe o Prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte e em 1976, recebe o Prêmio Machado de Assis de Memórias ou Crônicas, por Balão cativo. Em 1978 publica Chão de ferro e o 4o volume de memórias, Beira Mar – 1980. Na Argentina, é publicado Poliedro, uma seleção de textos do Baú dos ossos e de Balão Cativo, organizada por Maria Julieta Drummond de Andrade. Em 1981 publica Galo-das-Trevas e As doze Velas imperfeitas. Em 1983 recebe o prêmio destaque (Ele/Ela ). E sai o último volume completo de suas memórias: O círio Perfeito. Nava é empossado no cargo de Presidente em Comissão do Conselho Municipal de Proteção do Patrimônio Cultural do Rio de Janeiro, da Secretaria Municipal de Educação e Cultura. Participa de debate, “ O Rio de Pedro Nava “, sobre a destruição das cidades, principalmente a do Rio de Janeiro, com outros escritores, urbanistas e arquitetos. O evento inaugurou a exposição “ Pedro Nava - Tempo, Vida e Obra “, alusivo aos 80 anos do memorialista, promovido pela Fundação Casa de Rui Barbosa. Em 1984, O Círio Perfeito é premiado com o Livro do Ano, da Secretaria de Estado de Cultura de São Paulo. Em.13 de maio de 1984 suicida-se na Rua da Glória. Deixa incompleto: Cera das almas.
Roberto Bittencourt Martins. Médico psicanalista, radicado no Rio de Janeiro, há muitos anos e que começou cedo na arte da escrita. Em 1961 ganhou o Prêmio Machado de Assis com a publicação de Conjunto de contos. Em 1977-78, venceu um concurso de contos, do Paraná. Em 1981 publicou Ibiamoré o trem fantasma, considerada uma das melhores obras de ficção do Rio Grande do Sul. Em 1983 publicou outra coletânea de contos, intitulada: O vento nas vidraças. Em 1985, publicou Ardente amor e outras histórias
Moacyr Scliar nasceu em Porto Alegre em 23 de março de 1937. Formou-se médico, na Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em 1962. Fez residência em Medicina Interna e, mais tarde continua se aperfeiçoando em Saúde Pública. Ocupou sucessivos cargos na Secretaria de Saúde do Estado do Rio Grande do Sul, chegando a Diretor de Saúde Pública. Trabalhou para o Ministério da Saúde e da Organização Pan-Aamericana da Saúde. É professor do Departamento de Medicina Preventiva da Faculdade de Medicina da Fundação Faculdade Federal de Ciências Médicas de Porto Alegre.
Livros publicados
Contos: O carnaval dos animais, 1968, A balada do falso Messias. São Paulo, Ática, 1976, Histórias da terra trêmula. São Paulo, Escrita, 1976, O anão no televisor. Porto Alegre, Globo, 1979, Os melhores contos de Moacyr Scliar. São Paulo, Global, 1984, Dez contos escolhidos. Brasília, Horizonte, 1984, O olho enigmático. Rio, Guanabara, 1986, Contos reunidos. São Paulo, Companhia das Letras, 1995, O amante da Madonna. Porto Alegre, Mercado Aberto, 1997, Os contistas. Rio, Ediouro, 1997, Histórias para (quase) todos os gostos. Porto Alegre, L&PM, 1998; Pai e filho, filho e pai. Porto Alegre, L&PM, 2002.
Romance: A guerra no Bom Fim. Rio, Expressão e Cultura, 1972. Porto Alegre, L± O exército de um homem só. Rio, Expressão e Cultura, 1973. Porto Alegre, L± Os deuses de Raquel. Rio, Expressão e Cultura, 1975. Porto Alegre, L± O ciclo das águas. Porto Alegre, Globo, 1975; Porto Alegre, L&PM, 1996; Mês de cães danados. Porto Alegre, L&PM, 1977; Doutor Miragem. Porto Alegre, L&PM, 1979; Os voluntários. Porto Alegre, L&PM, 1979; O centauro no jardim. Rio, Nova Fronteira, 1980. Porto Alegre, L± Max e os felinos. Porto Alegre, L&PM, 1981; A estranha nação de Rafael Mendes. Porto Alegre, L&PM, 1983; Cenas da vida minúscula. Porto Alegre, L&PM, 1991; Sonhos tropicais. São Paulo, Companhia das Letras, 1992; A majestade do Xingu. São Paulo, Companhia das Letras, 1997; A mulher que escreveu a Bíblia. São Paulo, Companhia das Letras, 1999; Os leopardos de Kafka. São Paulo, Companhia das Letras, 2000; Na Noite do Ventre, o Diamante. Rio de Janeiro: Ed. Objetiva, 2005.
Além dos textos considerados para adultos, Moacyr Scliar publicou diversos contos infantis e milhares de crônicas, destacando-se as semanais do Jornal Zero Hora.
Ao contrário dos seus antecessores Dyonélio Machado e Cyro Martins, que alimentavam sua imaginação com personagens que circulavam pelos Pampas e pelas cidades, Moacyr Scliar nutre seu imaginário ficcional com personagens que vivem, sobrevivem, lutam e morrem nas cidades. Como Cyro Martins, Moacyr Scliar fez e faz a seu tempo: a cada passo, um livro. Mantém, então, uma vasta obra literária, com mais de 60 livros até 2003. Além das inúmeras premiações recebidas, em 31 de março de 2003 foi eleito membro da Academia Brasileira de Letras, assumindo a Cadeira de número 31, até então ocupada por Geraldo França Lima.
António Lobo Antunes nasceu em Lisboa, em 1942. Estudou na Faculdade de Medicina de Lisboa e especializou-se em Psiquiatria. Exerceu, durante vários anos, a profissão de médico psiquiatra. Em 1970 foi mobilizado para o serviço militar. Embarcou para Angola no ano seguinte, tendo regressado em 1973. Em 1979 publicou os seus primeiros livros, Memória de elefante e Os cus de judas, seguindo-se, em 1980, Conhecimento do inferno. Estes primeiros livros, marcadamente biográficos, estão muito ligados ao contexto da guerra colonial. E transformaram-no logo num dos autores contemporâneos mais lidos e discutidos, no âmbito nacional e internacional.
Da sua obra: Explicação dos Pássaros, Fado Alexandrino, Auto dos Danados, As Naus, Tratado das Paixões da Alma, A Ordem Natural das Coisas, A Morte de Carlos Gardel, O Manual dos Inquisidores, O Esplendor de Portugal, Exortação aos Crocodilos, Não Entres Tão Depressa Nessa Noite Escura, Que Farei Quando Tudo Arde, Boa Tarde às Coisas Aqui Em Baixo, Eu Hei-de Amar uma Pedra, Ontem Não te Vi em Babilôni. Em 2007 seu último romance, O Meu Nome É Legião. Constam, ainda, três volumes de crónicas.
Ruy Germano Nedel nasceu em Ijuí em 5 de junho de 1937. Em 1966, formou-se médico pela então Fundação da Faculdade Católica de Medicina de Porto Alegre. Em 1984, publicou o romance baseado na vida heróico do índio Sepé Tiaraju, intitulado: De Sepé Tiaraju e o triste fim das Missões. Como político foi eleito várias vezes deputado federal. Em 2006 publicou Ego Sum: O mundo interior.
José Eduardo Degrazia Nasceu em Porto Alegre em 05 de agosto de 1951. Formou-se em Pelotas, médico oftalmologista e escritor. Membro da Academia Sul-Riograndense de Letras. No início dos anos 70 realizou, junto com escritora e professora Jane Tutikian e outros, a oficina de contos da UFRGS, com Moacyr Scliar e Lígia Averbuck.
Recebeu vário prêmios, destacando-se entre eles o prêmio do Biênio da Imigração e colonização com O livro Lavra Permanente e o de contos O Atleta Recordista, ficou entre os três classificados - eram 360 - do concurso Nacional Nestlé de Literatura de 1996. Tradutor de sete livros do Pablo Neruda, para a Editora L&PM e Editora José Olympio do Rio de Janeiro. Coordenou junto com os colegas Franklin Cunha, Fernando Neubarth, Bláu Fabrício de Souza a série Médicos PRES(CREVEM)
Desde cedo, dedicou-se à poesia, textos curtos, mini-textos, novelas e crônicas, numa invejável e constante produção literária.
Dentre suas múltiplas publicações, destacam-se: Lavra permanente(poesia), Cidade submersa(poesia), A porta do Sol(poesia), O samba da girafa(infantil), A caturrita cocota (infantil), Amor essa palavra(poesia), Em mãos(poesia), Noites nos Andes(poesia), Sete poetas gaúchos(poesia), Atleta recordista (Contos., Seus últimos lançamentos foram pela Editora Movimento, com Coleção Rio Grande: Novela Reino de Macambira, com o qual conquistou o Prêmio Livro do Ano, da AGES, em 2006, categoria texto longo. Seguem-se Poetas Italianos de Pascoali aos crepusculares
Iván Izquierdo nasceu em Buenos Aires, Argentina, em 1937, formou médico em 1961. Fez Doutorado em Farmacologia na Universidade de Buenos Aires. Depois de casar com uma brasileira gaúcha, transferiu-se para o Brasil, no início da década 1970 e passou a trabalhar como pesquisador de tempo integral no Instituto de Ciências Básicas da Saúde da UFRS, onde conquistou nome internacional com suas pesquisas. É um dos cientistas de neurociência mais citados na literatura médica mundial. Com seu livro Recordar é viver, Iván Izquierdo já exibia a publicação de 469 artigos científicos em periódicos nacionais e estrangeiros. Suas descobertas são fruto de parceria com mais de 200 colaboradores em 13 países. Para comemorar 40 anos de atividade, reuniu os principais achados no livro Memória, destinado a médicos, biólogos e psicólogos. No livro Silêncio, Por Favor!, Izquierdo analisa os diversos silêncios e ruídos que nos cercam. Para ele, duas das principais características da nossa sociedade são a correria das pessoas e o ruído. “Passamos boa parte do tempo num corre-corre de um lado a outro em meio a um barulho infernal.” Mas Izquierdo não se limita apenas a essas questões científicas, pois publicou os seguintes livros de ficção: Francisco, o pássaro, o milagre; Releitura do Óbvio; Tempo de viver, tempo e tolerância.
Nilson Luiz May nasceu em 15 maio de 1940. É médico formado pela Faculdade de Medicina da UFRGS em 1963. Surge na literatura, na década de 1970 com crônicas e contos, com os quais conquistou o Concurso Apesul, de 1989, com o romance Terra da Boa Esperança. Em 1994 publicou o livro de contos: Inquérito preto e branco. Em 200, pela Antologia Crítica do Conto Gaúcho, foi agraciado com o Troféu Amigo do Livro. Em 2000 publicou Céus de Pindorama.
José Blaya Perez Filho médico, psiquiatra, psicanalista, poeta, contista e romancista, nasceu em Santa Maria, 6 de dezembro de 1947 e faleceu em 29 de janeiro de 2005. Formou-se médico pela então Fundação da Faculdade Católica de Medicina de Porto Alegre, no período de 1967 a 1972.
Livros de ficção publicados: Dom Casmurro era um cascudo, Última sessão, Não vi nascer John Lenon, Basta dizer que amei Natasha Pietova e Os nomes da nossa dor.
Fernando Neubarth. natural de Três Coroas, em 1960, viveu em Taquara até a época da faculdade, reside em Porto Alegre desde então. Formou-se médico na Faculdade de Medicina da UFRGS, em 1983. É especialista em clínica médica e reumatologia e presidente da Sociedade Brasileira de Reumatologia. Cursou a Oficina de Criação Literária, do Curso de Pós-Graduação de Letras, da PUC, coordenada pelo escritor Luiz Antônio de Assis Brasil e do Seminário de Leitura Crítica e de Criação, da professora Léa Masina. Em 1990 venceu o Concurso de Crônicas sobre a Feira do Livro da Praça da Alfândega. Em 1994 recebeu o Prêmio Editorial Henrique Bertaso e o Prêmio Açorianos , como melhor livro de contos e autor revelação. Em 1999 publica outra coletânea de contos intitulada À sombra das tílias, também indicada ao Prêmio Açorianos e vencedora do Prêmio Nacional Quero-quero para Médicos Escritores - 2000. Ainda em 2000, publica Memória das luzes, categoria crônica. Tem participações na organização ou convidado em diversas antologias literárias e publicações esparsas em jornais e suplementos literários. Foi um dos coordenadores da série Médicos (pr) escrevem e organizou, em 2008, para a Editora Casa Verde, o quarto volume de minicontos da série Lilliput, Contos comprimidos.
Franklin Cunha nasceu em Antônio Prado em 1939. Formou-se médico na Faculdade de Medicina da UFRGS em 1965 e é um dos signatários do jornal o Pascoal. Há anos trabalha em Porto Alegre, em serviço público e privado, na especialidade de Ginecologia. Cursou a Oficina de Criação Literária, do Programa de Pós-Graduação de Letras, da PUC, coordenada pelo escritor Luiz Antônio de Assis Brasil e do Seminário de Leitura Crítica e de Criação, da professora Léa Masina. Além de inúmeros trabalhos científicos de sua especialidade, no gênero ensaios, publicou inúmeros textos sobre assuntos diversos no Jornal Zero Hora, Porto Alegre RS.Foi um dos editores da série Médicos PRES(CREVEM). Além de três contos publicados ao término da Oficina Literária, coordenado por Assis Brasil.
Publicou dois textos longos: Deuses Bruxas e Parteiras, A Lei primordial e outros ensaios. No compêndio UFRGS Identidade e Memórias – 1934 -1994, publicada pela Editora da Universidade, Franklin Cunha colaborou com o texto intitulado: Anos de vento frio.
Blau Fabrício de Souza nasceu em Lavras do Sul, em 08/09/1940 e formou-se médico pela Faculdade de Medicina da UFRGS em 1965. É também um dos fundadores e signatários do jornal O Pascoal. Cursou a Oficina de Criação Literária, do Curso de Pós-Graduação de Letras, da PUC, coordenada pelo escritor Luiz Antônio de Assis Brasil e do Seminário de Leitura Crítica e de Criação, da professora Léa Masina. Foi um dos coordenadores da série Médicos PRES(CREVEM .
Participou da publicação Contos de Oficina, em 1992. Publicou De Todo Laço(1992), Contos do Sobrado, de 1998 e um livro de crônicas etitulado e Uma no cravo, outra na ferradura, em 2004a. Dois livros de memórias de uma infância de ricas rememorações de pessoas que lhe foram gratas, familiares ou não. Fala de um passado remoto, de vida na estância. Vai na linha das velhas histórias do Pampa, do mais puro sentimento do gaúcho e causos de galpão. Foi um dos editores da série Médicos PRES(CREVEM). `E membro do Instituto Histórico Rio-Grandense.
Waldomiro Carlos Manfroi nasceu em Nova Bréscia em 06/01/1937. Fez os estudos primários numa escola pública na vila chamada Pinhal, município de Palmeira das Missões. Cursou o ginásio em Sarandi e Cruz Alta e concluiu o científico no Colégio Estadual Júlio de Castilhos. Formou-se na Faculdade de Medicina da UFRGS em 1965. Foi orador da turma e um dos fundadores e signatário do Jornal O Pascoal. Fez três anos de Residência Médica em cardiologia, um ano e meio de aperfeiçoamento nos Estados Unidos da América do Norte; Especialização em Educação e Doutorado em Cardiologia. É Professor Titular do Departamento de Medicina Interna da Faculdade de Medicina da UFRGS. Foi Diretor da Faculdade por dois períodos, 1985-1988 e 2001-2005. Pró-Reitor de Extensão da UFRGS, de 1988-1992. É Professor Emérito da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Como pesquisador tem 87 trabalhos publicados em revistas nacionais e internacionais.
Em 1997, cursou a Oficina de Criação Literária, do Programa de Pós-Graduação de Letras, da PUC, coordenada pelo escritor Luiz Antônio de Assis Brasil e do Seminário de Leitura Crítica e de Criação, da professora Léa Masina, 1998 a 2001
Como escritor publicou o Romance Tempo de viver – 1992 e O último vôo em 1994.. Participou em Contos de Oficina em 1988. Em 1999 publicou o romance A Confissão do espelho, em 2004, Os demônios do lago e em 2005, Férias interrompidas.
Jaime Vaz Brasil nasceu em Bagé em 30 de dezembro de 1962, formou-se em medicina na Faculdade Católica de Pelotas, em 1987, e fez a residência na Clínica Pinel de Porto Alegre. Atualmente trabalha como médico psiquiatra; é poeta, compositor e contista.
Livros publicados: Inventário de Cronos, Livro dos Amores, Punhais do Minuano, Os olhos de Borges, Pandorga da Lua(CD).
Contos: Nosso tio, tenente Alfredo Nunes, contava histórias; Cordeiro de Deus; O Duelo Final, Milonga Triste Para Adão Latorre, O Amor de Amar para Sempre.
Prêmios: Vencedor do Prêmio Açorianos de Melhor Composição para Teatro, em parceria com Flávio Vaz Brasil. Vencedor do Prêmio Paulo Sérgio Gusmão, com o poema "O Amor Intestino", integrante do "Livro dos Amores" Vencedor do Concurso Literário Felippe d'Oliveira, com o poema "A Primeira Morte". Vencedor, por três edições, do Prêmio Melhor Letra (Troféu Apparício Silva Rillo), da Califórnia da Canção. Vencedor de vários festivais de música, como letrista.
Celso Gutfreind nasceu em Porto Alegre, em 1963. Como médico, especializou-se em Medicina Geral Comunitária n0 Hospital Nossa Senhora da Conceição; Psiquiatria, na Fundação Mário Martins e Associação Brasileira de Psiquiatria e Psiquiatria Infantil, na Universidade Paris V. Realizou na França Doutorado em Psicologia Clínica, na Universidade Paris XIII) e Pós-Doutorado em Psiquiatria Infantil, no grupo hospitalar Pitié-Salpetrière, da Universidade Paris VI. Atualmente, é professor da graduação na Faculdade de Medicina e pós-graduação em Saúde Coletiva da ULBRA e da Fundação Universitária Mário Martins.
Como escritor tem 12 livros publicados, entre poesia e histórias infantis. Também participou de diversas antologias e recebeu vários prêmios. Tem textos traduzidos para o espanhol, francês e inglês. Colabora na imprensa, assiduamente, sobretudo com crônicas.
Dos livros publicados, destacam-se: Nado, Os inocentes, Promessa de palavra, A longeva, Prescrição de andarilho.
Léo Trombka nasceu em Porto Alegre em 23 de agosto de 1946. Formado em Medicina pela Fundação Faculdade Federal de Ciências Médicas de Porto Alegre, em 1970. Fez Especialização em Cardiologia pela Fundação Universitária de Cardiologia de Porto Alegre - Instituto de Cardiologia. Exerce Medicina em Porto Alegre, pertencendo ao grupo de cardiologia do Hospital Moinhos de Vento. Começou a escrever contos em 1993, em pleno exercício da atividade médica. Freqüentou a Oficinas de Criação Literária com os escritores Charles Kiefer e Luiz Antônio de Assis Brasil, este último, no Pós-Graduação de Letras da PUC. Integrou o grupo de Criação e Crítica Literária da professora Léa Masina.
Participou nas antologias Médicos contam contos(1999), Contos de oficina(2000), Médicos (PR)escrevem, com o cômico e o inesquecível, Contos do novo milênio (2006).
Autor do livro Sempre é tempo de ninar um pai e outros contos (2003).
Juarez Guedes Cruz nasceu em Porto Alegre em 1943. Formou-se em 1967, pela Faculdade de Medicina da UFRGS. Especialização em Clínica Psiquiátrica pela UFRGS. Fez formação analítica na Sociedade Psicanalítica de Porto Alegre, da qual é membro efetivo e analista didata. Quando estudante de medicina foi um dos redatores do jornal “Cacique Abestardo.” Desde a especialização em psiquiatria apresentou em congresso e publicou em revistas especializadas, vários trabalhos científicos. Participou e participa dos Seminários de Leitura Crítica e Criação da professora Léa Masina. A partir de 1996 passa a escrever ficção de forma mais sistemática. Venceu o Prêmio Açoriano de Literatura, em 2004, com livro de contos A cronologia dos gestos. Em 2007, publicou outra antologia de contos intitulada Alguns procedimentos para ocultar feridas.
Khaled Hosseini Em 1976, Khaled Hosseini e sua família se mudam para Paris, por conta do novo emprego do seu pai. Eles não voltaram mais ao Afeganistão porque, enquanto estavam em Paris, comunistas tomaram o poder do país por meio de um golpe. Deste modo, foi consentido à família Hosseini, asilo político, nos EUA, onde passaram a residir em São José da Califórnia. Suas propriedades foram todas deixadas no Afeganistão e eles foram forçados a sobreviver com ajuda governamental por um curto perído. Khaled formou-se na escola secundária em 1984 e inscreveu-se na Universidade de Santa Clara, onde ganhou título de Bacharel em Biologia, em 1988. Após alguns anos, ele ingressou na Universidade da Califórnia, San Diego, escola de Medicina, onde recebeu o título de Doutor em 1993. Ele completou o período de residência em Medicina Interna na Cedars-Sinai Medical Center, em Los Ângeles, no ano de 1996. É casado com Roya Hosseini (sobrenome de casada), e tem dois filhos, Harris e Farah, a quem considera a noor de seus olhos.
Seus dois livros, O caçador de pipas e A cidade do sol, figuraram como os mais vendidos por muitos meses, em todo mundo.
Irvin G. Yalom descendente de imigrantes russos pobres, nasceu em Washington em 13 de junho de 1931, criou-se na periferia da cidade, em bairro pobre de negros e poloneses segregado. Estudou em colégios públicos do seu distrito. Formou-se médico e hoje é Professor de Psiquiatria da Escola de Medicina de Stanford, dos Estados Unidos da América do Norte. Nos últimos anos tem se dedicado, cada vez mais a publicar livros inovadores sobre psicanálise e de ficção, dos quais, alguns se tornaram Best- Sellers, em todo o mundo. Quando Nietzsche chorou, Mentiras do divã, Psicoterapia de grupo, são os exemplares mais conhecidos.
Contardo Calligari é psicanalista italiano e doutor em Psicologia Clínica. Atualmente, vive e clinica entre Nova York e São Paulo. Em sua produção bibliográfica constam O conto do amor (Companhia das Letras, 2008), Crônicas do individualismo cotidiano (Ática, 1996) e A adolescência (Publifolha, 2001). Além dessas publicações, assina uma coluna às quintas-feiras no caderno Ilustrada da Folha de S. Paulo, em que reflete sobre a cultura e a modernidade.
E sobre a qualidade, que consta no título do encontro, nenhuma palavra?
Não. Esta é tarefa para os críticos.
Waldomiro C. Manfroi
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